sábado, 20 de julho de 2013

Inocência roubada

Os olhos vidrados no teto branco, o frio de fim de tarde penetrando na pele macia e surrada pela vida. Pensamentos correndo nus e apavorados pelo quarto, a tristeza no ar lembrava-lhe a inocência de uma criança. A tal inocência que não se lembrava de ter tido. Mãos escuras e enrugadas saiam daquele teto branco, e surravam a lembrança daquela velha jovem. O quarto escurecia e a levava de volta para’quele dia, dia em que sua inocência foi roubada, as imagens se confundiam, mas ainda estava lá, guardadas no rancor de sua memória. Aquelas mãos enrugadas e sujas tocando sua pele de criança, o medo do desconhecido, a irmã mais velha correndo para o banheiro, em uma tentativa de se esconder, seu corpo se deitando contra a sua vontade, o diabo e esmagando, o halito de monstro perto de sua boca de anjo, a dor, o desespero, as lágrimas, a pureza de um anjo sendo roubada, sendo sugada pelo demônio. Os berros, berros que ainda a acordavam em meio a pesadelos confusos. “Onde estava Deus naquela hora?" pensava, deitada no chão frio, olhando o teto branco, pensava, chorava, gritava, queria sua inocência de volta, queria sua alma de volta. Mas não a teve, foi roubada para nunca mais voltar, nunca mais. Pois sua alma, já a desgrudava daquele velho e decrepito corpo, surrado pela vida. Onde estava Deus naquela hora? Tanto Lhe supliquei, pedi socorro, e não encontrei. Onde esta Deus agora? A imagem já turva do teto branco, sua alma sendo arrancada, os tambores batendo, a inocência roubada, o fim dos pesadelos, de uma vida sem viver. O corpo sendo jogado a sete palmos do chão. Aquelas lágrimas já não eram mais dela, assim como a inocência que nunca lhe pertenceu. Foi arrancada da vida, com tanta dor, como sua inocência. Mas dessa vez, ao invés de lágrimas, sorrisos.
                                                                                                         Rosa, Amanda.

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